sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Poesia

Um livro inesquecível.

Alguns versos:
"Ó grande mar atlântico, desculpa!
Cuspi à tua beira três sonetos.
Sim, mas cuspi-os sobre a minha culpa." (p. 41)

" Como todos não creio no que creio.
Talvez possa morrer por esse ideal.
Mas, enquanto não morro, falo e leio" (p.76)

" Há saudades nas pernas e nos braços." (p.401)





O poema de Fernando Pessoa que eu  mais recito na Rádio Cultura diz assim:

" Mandei fazer um relógio,
das patas de um caranguejo,
só para marcar as horas,
e os minutos que eu não te vejo"

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Era uma vez...


Já contei na Rádio Cultura e os ouvintes adoraram.
Resumindo: Um homem (ou poderia ser uma mulher) caminhava na direção de uma fonte no deserto.   Ele se sentia perdido,  não tinha mais forças para andar. As dunas, nas suas formas transitórias, não são referências para indicar a direção a seguir. O homem já não podia andar, caiu.
 Do chão, ele fez um desafio a si mesmo: Aposto que eu ainda consigo subir naquela duna mais alta ali adiante! Reuniu forças, cambaleou, caminhou, caindo mais 5 vezes e levantando com o olhar na direção do último objetivo, que finalmente atingiu. Lá do alto, ele teve duas surpresas: 
1) Avistou a fonte de água limpa que tanto procurava.
2) Explicavelmente, reuniu forças para correr como um atleta descansado, na direção da água viva que tanto precisava...!

domingo, 19 de janeiro de 2014

Era uma vez... A PIPA E A FLOR - Rubem Alves

Poucas pessoas conseguiram definir tão bem os caminhos do amor como Rubem Alves, numa fábula surpreendente, cujos personagens são: uma pipa e uma flor.
A história começa com algumas considerações de um personagem que deduzimos ser um velho sábio.
Ele observa algumas pipas presas aos fios elétricos e aos galhos das árvores e afirma que é triste vê-las assim, porque as pipas foram feitas para voar.
Acrescenta que as pessoas também precisam ter uma pipa solta dentro delas para serem boas.
Mas aponta um fator contraditório: para voar, a pipa tem que estar presa numa linha e a outra ponta da linha precisa estar segura na mão de alguém.
Poder-se-ia pensar que, cortando a linha, a pipa pudesse voar mais alto, mas não é assim que acontece.
Se a linha for cortada, a pipa começa a cair.
Em seguida, ele narra a história de um menino que confeccionou uma pipa.
Ele estava tão feliz, que desenhou nela um sorriso.
Todos os dias, ele empinava a pipa alegremente.
A pipa também se sentia feliz e, lá do alto, observava a paisagem e se divertia com as outras pipas que também voavam.
Um dia, durante o seu voo, a pipa viu lá embaixo uma flor e ficou encantada, não com a beleza da flor, porque ela já havia visto outras mais belas, mas alguma coisa nos olhos da flor a havia enfeitiçado. Resolveu, então, romper a linha que a prendia à mão do menino e dá-la para a flor segurar. Quanta felicidade ocorreu depois!
A flor segurava a linha, a pipa voava; na volta, contava para flor tudo o que vira. Acontece que a flor começou a ficar com inveja e ciúme da pipa. Invejar é ficar infeliz  com as coisas que os outros têm e nós não temos; ter ciúme é sofrer por perceber a felicidade do outro quando a gente não está perto.

A flor, por causa desses dois sentimentos, começou a pensar: se a pipa me amasse mesmo, não ficaria tão feliz longe de mim... Quando a pipa voltava de seu voo, a flor não mais se mostrava feliz, estava sempre amargurada, querendo saber com quem a pipa estivera se divertindo. A partir daí, a flor começou a encurtar a linha, não permitindo à pipa voar alto. Foi encurtando a linha, até que a pipa só podia mesmo sobrevoar a flor.
Esta história, segundo conta o autor, ainda não terminou e está acontecendo em algum lugar neste exato momento.
Há três finais possíveis para ela:

1 - A pipa, cansada pela atitude da flor, resolveu romper a linha e procurar uma mão menos egoísta.
2 - A pipa, mesmo triste com a atitude da flor, decidiu ficar, mas nunca mais sorriu.
3 - A flor, na verdade, era um ser encantado.
O encantamento quebraria no dia em que ela visse a felicidade da pipa e não sentisse inveja nem ciúme.
Isso aconteceu num belo dia de sol e a flor se transformou numa linda borboleta e as duas voaram juntas.