domingo, 14 de maio de 2017

Cuidado com os espelhos e as surpresas de amar ao "próximo".


Gosto de escrever textos para provocar reflexões sobre as lições da sabedoria da natureza, especialmente a dos animais.
Um bom exemplo é o das aves migratórias que sabem a hora de ir embora, de sair de cena observando apenas os sinais do contexto onde estão.
Em alguns casos, podemos aprender com as aves.
Temos uma natureza interior, uma ecologia, com animais selvagens e primordiais.
Cada ser humano é uma versão do Noé Bíblico, que precisa construir uma Arca para salvar os seus animais interiores do dilúvio do inconsciente.
Nessa linguagem simbólica há o desafio de ter consciência da força da natureza instintiva que pulsa em nós, e que precisa ser descoberta pelo ser humano, entendida e aceita pela razão.
Salvar os nossos animais interiores do dilúvio do inconsciente passa pelo autoconhecimento. Entender o eu, o outro, o grupo e leitura da própria realidade.
Contudo, não temos unicamente uma zoologia interior.
Há também multidões de personagens e padrões de comportamentos e atitudes – os arquétipos –­ teorias descritas pelo psicanalista C.G. Jung, com os seus múltiplos diálogos.
Todos nós, de certa forma, temos os nossos diálogos internos. Nunca estamos sós!

Podemos até afirmar que conversamos silenciosamente, perguntamos, sem ter todas as respostas. Dizem que Deus nos sonda, escuta e nos conhece na intimidade.
O grande poeta americano Walt Witmann, descreveu em versos, os conflitos e dilemas da alma humana:
“... sou imenso, sou contraditório, há multidões dentro de mim...”
Cabe uma pergunta:
Quem verdadeiramente se conhece? Sabe ler a realidade em que vive?
Sobre este tema, o filósofo grego Heráclito, sempre alertava aos seus discípulos com a seguinte afirmação:
- “Quem quiser investigar a verdade, deve estar preparado para surpresas...”
Na bíblia existem várias passagens para a reflexão sobre o assunto, como por exemplo, as dúvidas de Saulo quando, a caminho de Damasco, cai por terra tremendo e atônito, volta a sua face para o céu e pergunta:
- “Senhor, que queres que faça?” Esta mesma pergunta, foi formulada por Francisco de Assis, quando, numa espécie de “loucura”, ouvia vozes, mas não sabia responder.
Foi preciso o recolhimento desnudo para que ele, finalmente ouvisse a única e verdadeira voz interior:
- Francisco, restaure a minha Igreja!
Quem sabe agora, arrisquemos entender numa nova dimensão, as palavras de Jesus:
- Amai vossos inimigos. (Lc 6,35)
- Amai-vos uns aos outros... (Rm 12,10)
E finalmente, a frase mais esclarecedora:
- Amai o próximo como a si mesmo!
E, se de repente você descobrisse que o seu “próximo” está no seu interior, e que o seu maior “inimigo” é “você” mesmo? Sob a forma de pensamentos não saudáveis, isolamento, omissões e atitudes?
E, se percebesse mais profundamente que não se conhece na essência, que não cultiva amor próprio?
Que desconhece o “outro” contido em você (próximo), o grupo que está inserido a sociedade e no universo?
Que se encontra com baixa autoestima e não se valoriza?
Nessa fase, tenha cuidado com os espelhos!
Este “insight” sobre a verdade, como bem lembrou Heráclito, não seria uma grande surpresa pra você?
Perdoar é conhecer o amor, entender-se como ser de relação com animais racionais ou não. Eles existem e, por vezes, estão mais próximas que pensamos.
Agora, quem sabe? não seremos capazes de melhor compreender a sabedoria fantástica de Jesus Cristo?
Pois, amando os nossos “inimigos”, estaremos certamente amando a nós mesmos, um passo decisivo para compartilhar o amor, na grande fraternidade universal tantas vezes referida nas escrituras como o Reino de Deus que está no presente, no aqui e no agora do maravilhoso instante consciente.

sábado, 13 de maio de 2017

OFICINA DE CONTADORES DE HISTÓRIAS NA RÁDIO CULTURA DIA 06 DE MAIO

Participantes da Oficina
Entrevista na Rádio no programa A Hora da História
Apresentadores da Rádio fizeram a acolhida das convidadas.
A nova Oficina será do dia 17 de junho.  
Inscrições e informações pelo telefone 32518423. As vagas são limitadas



sexta-feira, 7 de outubro de 2016

O MEDO DA SEMENTINHA - Rubem Alves


                       
Vou contar a história de uma sementinha.
Sua mãe era uma palmeira enorme, forte, de galhos compridos que entravam pelo céu.
Um dia, quando estava ferrada no sono, uma coisa estranha aconteceu.
Créec!
Um barulho, coisa que ela nunca ouvira antes.
De repente ela viu uma coisa que nunca havia visto antes.
Seu mundinho fechado e escuro, a barriga da sua mãe, se abriu. Começou a entrar uma luz.
Chegara a hora de nascer.
Ela ouviu uma voz suave e amiga: Sementinha! Sementinha! Não precisa ter medo. Sou eu, sua mãe...
Ela olhou para fora e viu aquela árvore enorme sorrindo para ela.
- Nada de ruim vai acontecer, sementinha.
O mundo aqui fora é mais gostoso que o mundo aí
dentro.
Olhe, vou apresentá- lá aos seus amigos.
Mamãe árvore balançou suas folhas, chamando, e veio o vento, e passaram as nuvens, e o sol brilhou...
Também a mãe de todos, a terra, que nos dá vida...
E a sementinha olhou para aquela terra maravilhosa, que se perdia de vista, nas montanhas do horizonte, cobertas de coisas verdes e coloridas, vivas e alegres, boas para comer, boas para cheirar, boa para ver...
A sementinha sorriu. Estava feliz.
A sementinha tinha uma amiga, alguém que gostava dela.
Assim ela viveu alegre e tranqüila, por vários dias.
Até que sua mãe lhe contou da grande viagem.
- Sementinha, dentro de pouco tempo o vento vai soprar para longe. Quando isto acontece, você vai para longe, numa longa viagem, flutuando.
A sementinha estremeceu, teve medo, muito medo.
A sementinha chorou.
Partir é sempre muito triste.
A velha árvore chorou também.
Ela gostava muito de sua filha. Mas continuou:
- É preciso partir, para continuar a viver.
Sementinha que não parte acaba morrendo...
A sementinha arregalou os olhos.
- Mamãe, por favor, me explique...
A mãe continuou...
- É preciso partir, para se transformar em mãe.
É preciso que a sementinha deixe o colo de sua mãe, para se transformar em árvore...
- Transformar em árvore?
Mas eu sou só uma sementinha, muito pequena.
As árvores têm de ser grandes...
- Dentro de uma sementinha está uma árvore adormecida.
O vento vai levá- lá para longe...
De repente ele vai parar.
Você cairá na terra.
Ali na terra, você vai deixar de ser semente e vai se transformar em árvore.
A sementinha teve medo.
Ele não entendeu aquilo que sua mãe lhe disse: você vai deixar de ser semente.
Será que ela iria sumir, desaparecer?
Isto é coisa de dar arrepios.
Ela se achava tão bonitinha, redondinha, lisa, ah!
Seria bom continuar a ser semente, sempre.
Mas sua mãe adivinhou o que se passava na sua cabecinha.
- Sementinha que continua sendo sementinha para sempre, termina seca, esturricada.
Por fim, morre.
O vento sobrou forte.
A sementinha foi arrancada do colo de sua mãe.
Teve de dizer adeus e foi voando, voando, cada vez mais Longe...
Passou por insetos, pássaros, folhas, alto, bem alto...
Até que o vento parou.
E ela foi descendo, até o chão.
O chão era úmido.
A terra era fofa e amiga.
E ela, mãe-terra, começou a cantar uma canção de ninar.
- Dorme, dorme, sementinha...
A terra quente a abraçou.
Caiu a chuva.
Lá dentro da terra, sem que ela percebesse como uma coisa nova começou a aparecer e a mexer.
Coisas novas, diferentes: um brotinho verde.
O brotinho foi crescendo, e quanto mais crescia, mais a sementinha diminuía.
A sementinha preta e redonda estava sumindo para que ela nascesse uma árvore verde e grande.
O brotinho se mexia dentro da barriga da mãe-terra, para sair...
Até que apareceu, bem pequeno, do lado de fora.
E foi então que a sementinha acordou, só que ela não era mais uma sementinha.
Era uma árvore nenê.
Todas diferentes, verdes com folhas bem pequenas.
Mas ela se parecia com sua mãe.
 E se lembrou do que ela lhe tinha dito:
- Dentro de cada sementinha está uma árvore adormecida.
E ela se sentiu muito feliz.
Ia crescendo, seria mãe também.
Olhou para baixo, viu a terra.
Olhou para cima, viu as nuvens, o sol.
Sentiu que o vento brincava com suas folhas, e deu uma gostosa risada...
A sementinha
Era uma vez uma sementinha.
Veio o vento e derrubou a sementinha na terra e cobriu ela.
A sementinha criou folhas pequenas.
A sementinha se reproduziu, cresceu e se transformou numa grande árvore.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016


    PARA ONDE VAI O AMOR QUE SE PERDE?
    Um ano antes de sua morte, Franz Kafka viveu uma experiência singular.
    Passeando pelo parque de Steglitz, em Berlim, encontr...ou uma menina chorando porque havia perdido sua boneca.
    Kafka ofereceu ajuda para encontrar a boneca e combinou um encontro com a menina no dia seguinte no mesmo lugar.
    Não tendo encontrado a boneca, ele escreveu uma carta como se fosse a boneca e leu para a garotinha quando se encontraram. A carta dizia : “Por favor, não chore por mim, parti numa viagem para ver o mundo. ”.
    Durante três semanas, Kafka entregou pontualmente à menina outras cartas , que narravam as peripécias da boneca em todos os cantos do mundo : Londres, Paris, Madagascar…
    Tudo para que a menina esquecesse a grande tristeza!
    Esta história foi contada para alguns jornais e inspirou um livro de Jordi Sierra i Fabra ( Kafka e a Boneca Viajante ) onde o escritor imagina como como teriam sido as conversas e o conteúdo das cartas de Kafka.
    No fim, Kafka presenteou a menina com uma outra boneca.
    Ela era obviamente diferente da boneca original.
    Uma carta anexa explicava: “minhas viagens me transformaram…”.
    Anos depois, a garota encontrou uma carta enfiada numa abertura escondida da querida boneca substituta.
    O bilhete dizia: “Tudo que você ama, você eventualmente perderá, mas, no fim, o amor retornará em uma forma diferente”.

    ~ May Benatar, no artigo “Kafka and the Doll: The Pervasiveness of Loss” (publicado no Huffington Post)


sábado, 26 de março de 2016

Compaixão, emoção e a natureza humana sob a visão de Da...

"Navegar é preciso, viver não é preciso"

(Foto Praia de Jurerê - Florianópolis - Santa Catarina)
"Navegar é preciso, viver não é preciso" *,  frase atribuída a Pompeu, general romano, que animava seus marinheiros quando se negavam a navegar durante a guerra.
A frase em latim soava assim: "Navigare necesse; vivere non  est necesse".
Do livro "Vida de Pompeu", do escritor romano Plutarco (106-48 AC).

A navegação é uma ciência exata, em comparação com a vida, que sabemos onde começa mas jamais onde termina! 
Se o navegador é prisioneiro dos instrumentos, ou seja, só enxerga seu destino a partir destes, o poeta é livre.
O navegador faz uso de instrumentos precisos para se localizar e dar rumo ao seu curso. Já a arte de viver, em todos os sentidos para homens e mulheres, traz a possibilidade metafórica de um deslizamento incessante sobre a cadeia significante das escolhas e que também dependem dos companheiros de viagem.
* Esta frase não é de Fernando Pessoa (1888-1935). Ele a copiou do poeta italiano Francesco Petrarca, que viveu de (1304 a 1374), que por sua vez copiou do General romano Pompeu.


sábado, 5 de março de 2016

O Novo Inconsciente

O livro O Novo Inconsciente, do Professor MSc. Marco Callegaro, será  pauta do programa A Hora da História, pela Rádio Cultura AM 1110 kHz, de Florianópolis. 
Estou nas primeiras páginas, e percebo uma linguagem acessível, com abordagens simples e didáticas, que despertam interesse em qualquer leitor. O tema central é o ser humano e a busca do autoconhecimento, na perspectiva da neurociência. Tão logo eu termine a leitura das 312 páginas, agendaremos uma entrevista na Rádio.
O autor, cujo livro foi agraciado com o Prêmio Jabuti, já  foi convidado e o convite aceito.