quinta-feira, 9 de abril de 2009

Nossos animais interiores

Quem não lembra de ter ouvido expressões como: "fulano deu com os burros n´água", "ele é teimoso como uma mula", "cuidado que ele tem lado para montar" ou é manso como um cordeirinho?
Algumas vezes agimos como uma cobra, ficamos ariscos e escondidos como uma onça, rugimos como um leão ou comemos como uma hiena.
Às vezes, até agimos igual a animais ruminantes que mastigam continuamente os rancores e mágoas do passado.
Os nosso animais interiores precisam ser salvos do dilúvio do inconsciente, que simbolicamente, significa tomar consciência da realidade que nos cerca, do meio ambiente interior, dos nossos limites na busca eterna do autoconhecimento; de aprender a dialogar com as dores e sofrimentos do corpo e do espírito, visando atingir uma relação terapêutica com a nossa animalidade, numa ecologia espiritual paradisíaca e harmônica para bem viver a maravilha da vida plena e em abundância.
Podemos até dizer que simbolicamente cada ser humano é uma espécie de arca de Noé, carregada de animais com seus instintos selvagens e primitivos.
O inconsciente coletivo, teoria defendida por Carl G. Jung, é a herança psíquica que todo ser humano recebe em sua constituição. Um reservatório de imagens latentes, primordiais, que cada pessoa herda de seus ancestrais. Cada uma destas predisposições é chamada de arquétipo.
Os arquétipos presentes no inconsciente coletivo são universais e idênticos em todos os indivíduos. Estes se manifestam simbolicamente em religiões, mitos, contos de fadas e fantasias, onde alguns deles podem ser representados por animais.
Os cães, por exemplo, são conhecidos universalmente pela fidelidade. Numa transposição para o comportamento humano, podemos afirmar que a maior prova de amor é a fidelidade.
Os gatos, que já foram tratados até como divindades no antigo Egito, passam as lições de como afugentar o estresse quando se espreguiçam demoradamente, da meditação, da serenidade e até de meiguice quando recolhem as unhas para nos acariciar.
Os cavalos, ao longo da história humana, foram eternos companheiros dos campos de batalha, onde muitos tombaram juntos com seus cavaleiros. Representam a força, companheirismo e a harmonia.
Graças ao movimento sincopado e tridimensional de suas patas, os cavalos são amplamente empregados, no ramo terapêutico chamado equoterapia, na recuperação de pessoas com necessidades especiais, com deficiências de coordenação motora.
O bode, na tradição judaica, representa o ouvido que escuta em silêncio a intimidade do confidente que confessa suas angústias e mágoas mais íntimas, confiante que seus segredos não serão revelados.
Resgatar então, os nossos animais interiores do dilúvio do inconsciente, é aceitar as diferenças e aprender a viver na diversidade. É fazer despertar a consciência dos nossos limites físicos, emocionais, espirituais com a certeza de que caminhamos no ciclo evolutivo do aperfeiçoamento para um dia vibrarmos com todas as criaturas do universo no espírito do amor.
Podemos usar a força de um tigre para lutar na defesa dos nossos ideais, a memória de elefante para lembrar dos propósitos divinos da natureza humana em busca do convívio comunitário, fraterno e feliz. Usar a prudência das serpentes que se arrastam e se cuidam para não serem pisadas, como modelo para os nossos negócios e empreendimentos. Podemos ser simples como as pombas para um convívio sem vaidades, teimosos como as mulas na manutenção dos nossos objetivos e metas.
Quem sabe, buscar nos macacos a inspiração para ser alegre, brindar a alegria de viver em comunidade como as abelhas, alegrar a nossa criança interior no convívio junto ao grande e livre zoológico que há em cada ser humano, apesar do individualismo cada vez mais consumista do mundo globalizado?
Cada animal tem seu papel sagrado e revelador da identidade humana, como na história da tradição européia dos tempos dos castelos medievais, de um menino que é enviando por seu pai a percorrer o mundo para aprender alguma coisa. Ao retornar para casa, depois de muitos dias o pai pergunta;
- O que você aprendeu filho?
- Pai! Aprendi a fala dos latidos dos cães. – Respondeu o menino entusiasmado.
O pai, cheio de racionalidade e sem se importar com as descobertas do filho, fica extremamente aborrecido porque "saber sobre os latidos dos cães" é uma perda de tempo e esta arte de nada adiantará para dura realidade da vida.
O menino parte novamente pelo mundo em busca de sabedoria.
Depois de muito andar na sua peregrinação, um dia encontra um castelo, onde deseja pernoitar.
Infelizmente o dono do castelo diz que ali não há lugar para ele, exceto na torre, onde existem cães ladradores selvagens, que já devoraram mais de um.
O menino é corajoso e não tendo outra escolha, consegue alguma coisa para comer e sobe altivo e determinado à torre. Lá, ele fala amigavelmente com os cães ladradores, graças aos seus ensinamentos anteriores quando peregrino pelo mundo.
Os cães falam com o menino e ainda dizem que são ferozes só porque guardam um tesouro, e que eles têm medo que alguém roube o valioso tesouro.
Após um diálogo estabelecido com sinceridade e franqueza, os cães ladradores mostram-lhe os caminhos para o tesouro, e ajudam-no a desenterrá-lo.
Nesta breve história, aprendemos que a descoberta dos nossos tesouros, passa pelo diálogo com as nossas dores, aliada a nossa capacidade de vencer os medos reais ou imaginários.
E que onde está o nosso medo, doença, dor, pode estar também o nosso tesouro. Eles são os cães selvagens que ladram dentro de nós clamando por revelar tesouros escondidos. É preciso ter a coragem de dialogar.
Eles não cessam de ladrar enquanto não lhes damos atenção. Que sempre existe uma proposta de diálogo em cada dor humana. É preciso saber usar a linguagem adequada para servir de alavanca na direção dos nossos ensinamentos de sabedoria, o verdadeiro tesouro.
A mídia, sabedora do poder da comunicação visual dos animais, explora muito bem este assunto.
Nos comerciais de TV, podemos citar o cachorro "salsicha" dos amortecedores COFAP, o macaquinho (mico) das conexões de PVC TIGRE, a vaquinha da NESTLÉ, entre tantos outros.
Na Bíblia Sagrada, há o relato de que Jesus nasce num estábulo, entre animais e existem mais de seiscentas passagens que utilizam animais, como as citadas abaixo, extraídas do livro Provérbios (30; 24-31):
"No mundo existem quatro seres pequeninos que são mais sábios do que os sábios: as formigas, povo fraco, mas que recolhe comida no verão; as ratazanas, povo sem força, mas que mora nas rochas; os gafanhotos que não têm rei, mas avançam todos em ordem; as lagartixas que se pode pegar com a mão, mas penetram até em palácios de reis".
"Existem três seres com belo porte, e um quarto de andar imponente: o leão, o mais valente dos animais, que não recua diante de ninguém; o galo empinado diante das galinhas; o carneiro que vai a frente do rebanho; e o rei que chefia seu exército"
Dos quatro evangelistas, três estão associados ao simbolismo animal: João, a águia , Lucas ao boi e um dos mais famosos, o leão de São Marcos.
Até países, times de futebol, partidos políticos, profissões e literatura, utilizam a força simbólica representada pelos animais.
Cada ser humano carrega latente em seu íntimo toda a sabedoria do universo. O poeta americano Walt Whitman nos legou uma frase maravilhosa e emblemática sobre este tema: "Eu sou contraditório, eu sou imenso. Há multidões dentro de mim".
Há multidões dentro de nós, não só de animais irracionais como também de homens e mulheres de todas as etnias, os reis e rainhas da criação divina.
Guardamos, no íntimo de cada um de nós, a história milenar do ser humano. Temos um pouco do índio, do negro, do polaco, do anglo-saxão, do açoriano, do germânico e do italiano. E, embora nesta grande diversidade, somos unidade na capacidade de aprender e de descobrir tesouros. E, às vezes, eles estão mais próximos do que pensamos...
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Julião Goulart, escritor, autor dos livros "Aprendendo com os Animais" - Est Edições Porto Alegre – 2004, "Maria Cegonha Ah! Se eu fosse você..." EST 2006, "Contador de História" - UFSC - 2008 e "Otimização da Memória com Dominó" - UFSC 2007

Texto

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Alguns humanos se comportam como sapos?

Os seres humanos são homeotérmicos, o que significa dizer que a temperatura de seu corpo se mantém constante, independente da variação da temperatura do ambiente em que se encontram, seja em locais próximos ao equador, ou em regiões mais frias.
Alguns grupos de animais, como os sapos, a temperatura do corpo é a mesma da temperatura do meio em que estão inseridos.
Tomemos como exemplo uma pequena lagoa freqüentada por alguns sapos. Quando estiverem na lagoa, a temperatura do corpo destes sapos se ajustará à temperatura da água (característica pecilotérmica). Os cientistas colocaram alguns sapos dentro de uma espécie de panela, com água captada da lagoa onde viviam.A temperatura foi aumentada gradativamente para observar o comportamento dos sapos.
A maioria das cobaias foi cozida sem perceber ou esboçar uma reação (pular fora da água quente). Quando esboçaram reação ao estímulo da água quente, já havia perda de mobilidade.
A dependência química, a obesidade e outras formas de compulsão agem conforme a água quente agiu nas cobaias da experiência: não percebem que estão sendo cozidas.
Quando despertam com o grito do Galo, dão-se conta de que estão com severas perdas, requerendo um longo e penoso caminho de desconstrução e de volta aos padrões homeotérmicos. Muitos obesos construíram seu atual peso ao longo de anos e, aos poucos, se acostumaram com as mudanças do corpo, do manequim, da auto-imagem, assim como os sapos, com a mudança imperceptível da temperatura da água. Será que estamos virando sapos?

Do livro: Aprendendo com os Animais