segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Cultura entrevista


No dia 17 de setembro,  entrevistei Júlio de Queiroz, Professor Doutor em filosofia, estudou em MuniqueKielLondres e Berlim. Doutorou-se com a tese Aspectos Estéticos da Mística Católica Medieval Alemã. Um destaque do programa foi   Hildegard de Bingen, conforme artigo abaixo, de autoria do entrevistado. 
Foto via telemóvel
"Agora que as “Meditações”, escritas por s. Anselmo de Cantuária (1033–1109) foram escoimadas de um material espúrio ligado a seu nome, volta-se a lhe creditar um papel excepcional nas correntes da vida mística da Alta Idade Média européia. No Século XII, houve um reviver místico, no qual brilham de modo excepcional, os beneditinos, s. Bernardo de Claraval (1091-1153),  s. Hildegarda de Bingen (1098–1179), Joaquim de Flore (1132–1202) e Ricardo de São Victor (+ c. 1173).
O espírito de Bernardo de Claraval e de Ricardo de São Victor é que dominará a vivência mística européia nos duzentos anos seguintes. As terras germânicas e as italianas são a exceção, onde inesperadamente surgem mulheres que, a partir do claustro, buscam influenciar as atividades da história secular.
Tanto em Hildegarda de Bingen quanto em sta. Elizabete de Schönau (1138–1165), na monja Gertrudes (1251-1291), em Mectildes de Magdeburgo (1212–1299), e em s. Gertrudes, a Grande, (1256 – 1311) todas beneditinas, temos uma longa linha de mulheres místicas – visionárias, profetisas e reformadoras políticas – que combinam a transcendência espiritual com grande habilidade prática e administrativa. 
Elevadas pela força de suas intuições espirituais, emergem de uma vida escondida claustral para impor sua leitura dos acontecimentos do mundo de sua época. Do ponto de vista da eternidade, em cuja luz viviam, elas atacaram os desmandos de sua geração.
ii. Hildegarda de Bingen 
 Mulher de caráter forte, aparentemente possuidora de qualidades psíquicas supranormais, a Abadessa Hildegarda era impulsionada pelo que ela própria denominava    aquela Luz Viva, que lhe foi inspiração para denunciar a corrupção na Igreja e nos governos temporais.
Nas cartas inspiradas que ela, de seu mosteiro, em Rupertsberg, perto de Bingen, uma cidadezinha sonolenta às margens do rio Reno, como se fossem raios incendiadores, enviava para reis e papas,  temos tanto o idealismo quanto o bom-senso prático dos germânicos.
Num equilíbrio psicológico raro, alternavam-se os conselhos e reprimendas políticas dirigidas aos senhores do poder temporal e espiritual e a imensa ternura de seus poemas místicos. Só vamos encontrar a mesma combinação de administração prática e envolvimento espiritual intenso numa outra mulher admirável, Tereza D’Ávila, filha do Século XVI.
Os poemas de Hildegarda, junto com a descrição de suas visões místicas, ela  guardou apenas para si por anos até que, tendo-os relatado a Bernardo de Claraval e, por fim,  autorizada por Eugênio III, o papa então reinante, passou a dá-los ao conhecimento de suas monjas.
Nascida em 1098, a mais nova entre dez filhos de Hildebert von Bermesheim, em Böckelheim no Nahe, com oito anos de idade foi entregue como oblata ao Mosteiro de Disibodenberg, uma casa feminina dependente do mosteiro masculino do mesmo nome e na mesma localidade.
Ali, tutelada pela grande abadessa Juta de Disibodenberg, posteriormente santificada, levou a vida reclusa de monja beneditina. Com a morte de Juta, a partir de 1136, Hildegarda, eleita abadessa, passou a dirigir a casa.
A “maior visionária da Alemanha”, como ficou conhecida, passou a sofrer um processo de cegueira e de paralisia.
Nada disso impediu que Hildegarda tomasse a iniciativa de transferir sua casa monástica de Disibodenberg para Rupertsberg (hoje Bingensbrück). A mudança teve lugar em 1147.
Apesar da má saúde, a Abadessa Hildegarda viajou pela França, pelo sul e leste da Alemanha pregando penitência.
Em suas mais de cem cartas existentes pode-se notar o caráter decidido, a vontade definida e, acima de tudo, o zelo pela fé cristã.
Esta fé, inteiramente cristocêntrica, manifesta-se quando esta mulher de vontade férrea não está recriminando cardeais, arcebispos e bispos, adoçada nos poemas descritivos de suas visões.
As 26 visões foram reunidas no livro  Scivias, ou seja, Sci vias Domini (aprende os caminhos do Senhor), escrito em Rupertsberg. Dois outros, um deles sobre as plantas curativas da Alemanha (Physica) e o  outro, o Causae et Curae, sobre causas e curas de doenças, demonstram uma capacidade de reflexão e de observação científicas pouco comuns naqueles tempos. Estes dois tratados posteriormente lhe trouxeram o título de Primeira Pesquisadora Médica da Alemanha.
Em 1632, os normandos atacaram e destruíram o mosteiro em Rupertsberg.  Na sua fuga, as monjas salvaram o codex original das visões. Depois da Guerra dos Trinta Anos, quando o Mosteiro em Eibingen foi formado, o codex ressurgiu. No Século XIX, com a Secularização, a Kulturkampf, também este Mosteiro  foi laicizado. Os escritos a mão por Hildegarda acabaram entregues à Biblioteca Oficial de Wiesbaden. Desde a Segunda Guerra Mundial, não se sabe o paradeiro desse codex.  Há, entretanto, uma cópia em pergaminho. As monjas do Mosteiro de Sta. Hildegarda, cerca de 40km. de Eibingen, a prepararam entre os anos de 1927 e 1933. Uma fotocópia dos originais existe na biblioteca do Mosteiro dos monges beneditinos  de Maria Laach. Uma edição crítica de todos os trabalhos de Hildegarda foi organizada pelas monjas de Eibingen e foi publicada pela Editora Otto Müller, de Salzburgo, na Áustria. 
Hildegarda é ainda a santa padroeira dos esperantistas e dos estudiosos da lingüística.
A beleza e a convicção de suas visões nos textos em que as descreve vieram a ter profunda influência na poesia mística da Alemanha medieval, ecoando com acentos fortes na obra de Mestre Eckart, nas de Henrique Susano e de Jacó Tauler, que viveram cerca de cem anos após a morte de Hildegarda.
Apenas como ligeira ilustração introdutória à poética de Hildegarda de Bingen, estes dois trechos:

 “Havia um rei, que, em seu trono majestoso,
  Ao notar uma pluma caída no chão, a levantou,
  Fazendo-a, ao seu sopro, dançar no ar.
  A pluma não subia e descia por nada que fizesse;
  Só sustentada pelo ar.
  Assim sou eu, pluma dependente do respirar de Deus.”

As candentes rimas de  O Ecclesia  lembram os tons amorosos do Cântico dos Cânticos bíbilico.
Ó Ecclesia,/ cujos olhos, safiras/ orelhas como os montes de Belém/nariz, uma montanha de mirra e incenso e cuja boca/ tem os sons de grandes águas.”

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