terça-feira, 21 de agosto de 2012

Contador de histórias



Contar histórias (e ouvir) tem origem milenar, da tradição oral.
Naquele tempo, quando ainda não existia nem lápis e nem papel, o contador de histórias precisava ter uma boa memória para ser o depositário da herança cultural dos seus antepassados e depois reproduzir as suas raízes culturais aos descendentes.
Era a tradição oral.
Na historia de Israel, coube a tribo dos Levitas a tarefa de preservar a tradição do povo. Ouviam e contavam histórias entre as tribos. Viajavam muito e, das doze tribos, foi a única  que não recebeu a terra, na tradição judaica daquela época, considerada uma herança de Deus.
A tribo dos Levitas recebeu uma missão maior, que era levar a tradição sagrada do povo, montar e conduzir o tabernáculo, tanto no período harmônico e feliz no tempo do regime tribal, como no período da escravidão e na longa caminhada pelo deserto em direção da terra prometida. 
As narrativas tradicionais expressam em imagens as verdades mais profundas da vida.  Daí serem eternas.
Era uma vez... Histórias de heróis... Numa terra muito distante..., Santos, príncipes e princesas, bruxas e dragões mexem com a fantasia, com os sonhos e ajudam crianças e adultos a superarem, com simplicidade e beleza os  conflitos pessoais e interpessoais.
Certa feita eu estava contando  histórias para um grupo de crianças e seus pais.
Para descontrair e começar a minha fala, perguntei  se alguém já conhecia a história   “O patinho feio”, de autoria do dinamarquês Hans Christian Andersen, uma das histórias mais conhecidas de todos os públicos, crianças, jovens e adultos. A resposta foi afirmativa  e unânime.
Então pedi que cada um contasse uma pouco da história para exercitar a memória e a arte de contar histórias. Eu era o ouvinte e o grupo inteiro contava uma história para mim.
Percebi que uma menina, que tinha levantado a sua mão com muito entusiasmo para sinalizar que conhecia a famosa história. Mas, ao chegar a sua vez de falar, silenciou de tal forma que chamou a minha atenção. Ela ficou calada até o final da história.
Sabemos que o  conto de Andersen – o patinho feio – trabalha o psicológico da rejeição do diferente. Mas, às vezes, ser diferente (o personagem da história era um  cisne, não  um pato como todos pensavam inicialmente) pode revelar-se como uma vantagem, na beleza e na elegância de um cisne, como na história.
Finalizamos o encontro resumindo, na conclusão do grupo:
Quando somos julgados pelas aparências, e em muitas  vezes isso ocorre de forma silenciosa, nos sentimos discriminados, rejeitados. O mesmo sentimento acontece com aqueles que nós discriminamos.
Nos despedimos no final do encontro e cada um voltou para a sua casa.
Dias depois encontrei a mãe daquela menina que não quis falar e nem comentar nada no encontro de contação de histórias. Ela agradeceu-me pela ajuda que eu tinha dado para a sua filha ao lembrar a história “O patinho feio”. É que sua filha,como ela, era estrangeira e a família mudou residência para o Brasil em função do trabalho do pai.
Contou-me que a menina estava com dificuldades de adaptação na escola. Havia uma dificuldade em falar corretamente a língua portuguesa, razão de ser motivo de chacota e risos de parte de algumas colegas de aula. 
A menina, aos se identificar com a personagem patinho feio, acreditou que a sua rejeição  era apenas uma incompreensão de pessoas que não a conhecia por ser de outra cultura.
Relato essa experiência com o objetivo de destacar o poder transformador de uma história para resignificar mudanças, perdas e outros conflitos da alma humana.
Um discurso, por mais eloqüente que possa se apresentar faculta ser contestado, mas uma história,  fantasiosa ou real, induz ao silêncio da reflexão subjetiva, sempre carregada de descobertas pessoais.  
É um convite  para o sonhar e sonhando, formar o próprio caminho, pontes para jornada da vida.
Podemos dizer que contar histórias é a mais antiga e, paradoxalmente, a mais moderna forma de comunicação.
No passado, era o contador de histórias o depositário da experiência, conhecimento e sabedoria.
Hoje, em tempos de supremacia da imagem (da televisão, do computador, das coisas prontas), as histórias contadas oferecem um divertimento que está dentro de cada um, em seus valores subjetivos.
Em tempos passados, o rito familiar possibilitava o clima intimista na relação entre as gerações nas sessões de contação de histórias.
A figura do avô ou da avó era símbolo do faz-de-conta, agente de introspecção imaginativas de crianças e jovens. Via de regra, brincadeiras entre crianças reproduziam e ampliavam as simbologias dos momentos mágicos extraídos dos livros.
Os tempos mudaram: a relação intimista entre as gerações fica prejudicada pelo acelerado dos ritos sociais modernos, dos “fast-foods”  e a nova figura do contador de histórias passa a ser o monitor de TV ou do computador e também dos “vídeos games”.
As brincadeiras, antes essencialmente coletivas (sem desperdiçar momentos de introspecção), assumem caráter de um isolamento ou nos momentos coletivos, reproduzem imagens prontas de uma trama estereotipada.
 Numa família da pós-modernidade, o ser humano está cada vez mais individualista,  cada um tem a sua TV no quarto, o seu computador pessoal, o seu telefone celular, e os membros de uma mesma família  só se encontram em casa nos corredores, nos intervalos da novela ou  do “Big Brother”  para esquentar a comida no microonda e voltar rapidamente ao seu assento diante da TV.
Aliás, sobre a influência da TV, gostaria de reproduzir um pensamento do escritor uruguaio Eduardo Galeano que diz assim:
“A televisão, essa última luz que te salva da solidão e da noite, é a realidade. Porque a vida é um espetáculo: para os que se comportam bem, o sistema promete uma boa poltrona.”
         Numa de minhas palestras sobre o livro “Aprendendo com os animais”, ao fazer referências sobre a simbologia dos animais na TV (cachorro da COFAP, vaquinha da Nestlé, tigre da Shell, tucano do PSDB e outros), um morador da cidade de Florianópolis comentou que  quando ocorreu o “apagão”  na ilha, nunca a sua família conversou tanto. É que a TV ficou desligada, é claro!
Se você quiser conhecer uma família que pratica o diálogo, desligue a televisão que em pouco tempo ela “aparece”.
Em um mundo sem tempo, torna-se cada vez mais necessário o resgate do instante mágico da contação de histórias e da leitura.
(Extraído do meu livro Contador de histórias)

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