segunda-feira, 4 de junho de 2012

O conto e a crônica














No I Encontro das Academias de Letras do Brasil em SC, realizado na Assembleia Legislativa do Estado de Santa Catarina, onde fui mestre de cerimônias, tive o prazer de reencontrar o escritor, Professor Júlio de Queiroz, que palestrou sobre o conto e a crônica.
O CONTO E A CRÔNICA

Um longínquo antepassado da espécie humana, ainda quase um símio sem pêlos, como qualquer outro animal terá grunhido seu susto ao ser atacado; sua dor ao ser começado a ser devorado; sua ansiedade quando em cio; sua satisfação ao encontrar comida.
Estes grunhidos não o diferenciavam de qualquer outro animal com cordas vocais. A grande diferença é que, ao contrário de outros animais, o grunhido de “cuidado, perigo à vista!” tomou-se um aviso a todos os outros seus companheiros, interrompeu o que quer que o resto do grupo estivesse fazendo e o alertou. A interjeição terá sido a primeira mensagem dada e recebida.
Nascia a linguagem falada, antecessora da comunicação escrita.
Na evolução dos grupos sociais, primeiro, a convivência do macho e da fêmea e os cuidados com os filhotes deu início à coesão na família; para ter maior proteção, famílias aproximaram-se entre si e formaram o clã; os clãs fortificados pela união, compuseram a tribo.
A sociedade humana estava constituída.
Neste três níveis, família, clã e tribo, teve lugar uma crescente complexidade da transmissão verbal, o aumento vocabular e, acima de tudo, o que aparentemente é um privilégio da espécie humana, o surgimento e o desenvolvimento de um vocabulário designativo não apenas de fatos concretos, mas também de sentimentos, de lembranças e de previsões. Um vocabulário de situações abstratas.
O acúmulo e a coletivização de experiências impuseram sua transmissão aos mais jovens. O acervo de experiências assim transmitido cresceu e transformou- se em sabedoria passada de geração em geração.
Mal caída a noite, terminada a faina do dia, em volta da fogueira à beira da caverna e depois das habitações primitivas, noitinha após noitinha, os mais velhos transmitiam aos mais jovens suas experiências pessoais e aquelas que tinham recebido, ainda crianças, de outros velhos já mortos.
Por que à noite? Porque após o serão noturno dormiam todos. Assim as impressões e os ensinamentos recebidos não eram toldados por impressões e experiências formadas por outras atividades após a audição.
Estes relatos e ensinamentos noturnos ganharam o tabu de não dever ser repetidos durante o dia. Em quase todos os estudos antropológicos surge a constatação de ter havido a proibição de repetir durante o dia os relatos ouvidos nas noites. Na tradição ocidental, ficou a proibição de não se contar estórias durante o dia e a admoestação, por muito tempo, severa, de que “quem conta história de dia, cria rabo”, ou seja, toma-se o demônio, o amaldiçoado, o proscrito.
Marie Louise von Kind, uma discípula de Jung, dedicou sua vida ao interpretar a linguagem simbólica dos contos de fadas, quase todos de antiqüíssima origem. Mostra ela como o conto “A Bela Adormecida”, compõe-se de determinações de um rito de passagem feminino. A menina que, apesar de proibida por seus pais estava fiando, é picada pelo fuso (o fuso é um símbolo fálico), sangra (símbolo da primeira menstruação), adormece. Em volta dela cresce uma sebe densa que oculta toda a casa (proteção da tribo) até que o homem certo (o escolhido para marido) se aproxima. Para ele a sebe se abre (as proibições grupais desaparecem) o jovem a beija  e a desposa. A unidade familiar não foi ameaçada; foi ampliada.
Dos muitos ensinamentos noturnos nasceram os relatos de valentia e proezas e também os de encantamento e amor.
Surgia um tipo de relato conhecido pelos lingüistas como folk lore, as historietas populares. São elas as longínquas antecessoras do conto e da crônica.
O conto está presente em todas as culturas humanas. Inicialmente como relatos orais. Depois do aprendizado e domínio da escrita, foi ele transposto para todos os meios de conservação conhecidos: o papiro, no Oriente Médio, as plaquetas de barro na Mesopotâmia; o papel, no Oriente Distante, as runas, em cascas de árvores do norte da Europa e o pergaminho, em toda a Idade Média.
De modo rudimentar, pode-se afirmar ter o conto escrito duas grandes fases no ocidente: A primeira no mundo pagão, mormente na Grécia e em Roma.
Na Grécia, parece que o primeiro relato escrito unicamente para deleite do leitor começou com Lúcio de Patras, que elaborou as aventuras de um rapaz que se transforma num burrico e descreve os seres humanos e seus hábitos do ponto de vista de um asno. Apuleio encadeia vários contos com um único tema: os amores de cupido e psique.
Roma teve vários autores, mas o principal deles foi Petrônio com seu Satyricon.
A segunda fase é a que abrange toda a tradição cristã e começou com os fabliaux, historietas gaulesas de todo tipo, que, quase que ao mesmo tempo, viram o surgimento da ballads, as baladas do mundo saxônico, depois anglo-saxônico.
No mundo ibérico, junto com a tradição das fábulas, depois da conquista muçulmana surgem as xácaras, do árabe jacaras, relatos de malfeitores simpáticos e aventureiros.
Uma legítima descendente da xácara é a literatura de cordel do nordeste brasileiro.
Juan Galiano Valera y Alcalá (1824—1905) um romancista e estudioso espanhol, tem um brilhante e erudito trabalho sobre a história universal do conto.
Diferenças entre o romance, o conto e a crônica
É comum, mas pouco exato, atribuir-se a diferença entre estas três formas literárias apenas pela extensão de cada uma delas. Se longo, é romance; se meio longo, é conto; se curto, é crônica. Outros acrescentam que se curtíssimo é aquilo que no Brasil é conhecido como caso ou, ainda, apenas resumido a um episódio, a anedota.
Do ponto de vista literário, as diferenças são um pouco mais complexas:
O romance tem 1) um tema principal e múltiplos subtemas. 2) elabora um aprofundamento psicológico das personagens e das situações. 3) relata uma série de acontecimentos em tempo ficcional presente à medida que estes se desenrolam e, por fim, 4) o final pode ser tanto inesperado quanto previsível.
O conto 1) apresenta um tema único ou tão forte que os subtemas sejam apenas pano-de-fundo. 2) desenha o personagem principal numa frase ou num parágrafo; 3) conta um incidente forte: 4) poe ser uma narrativa linear, mas não se aprofunda no estudo psicológico nem na motivação das ações, pelo contrário, 5) procurar demonstrar essas motivações pela descrição das ações das personagens. 6) sua linha de narrativa é horizontal e, sobretudo, 7) dá sempre um fim inesperado e surpreendente ao relato.
O romance é uma árvore com galhos frondosos espalhando-se.
O conto é um arbusto compacto com poucos galhos essenciais.
Elizabeth, Bowen, um estudiosa da forma do conto, numa série de ensaios (CoI!ected Impressions) afirma que “o conto exige apuro na técnica e no bom gosto. O que for supérfluo ou exagero dói na vista como uma inchação. Se o autor não tiver senso de medida, não há santo que o ajude.” (in A arte do conto — R. Magalhães Júnior).
Robert Kanters é ainda mais categórico: “Nada em excesso é a regra de ouro do conto.” Monteiro Lobato ensina de forma jocosa, mas oportuna: “Um conto há de sair sem esforço; como se mija”. E Mário de Andrade acrescenta com ironia que “conto é aquilo que o autor chama de conto” (idem, ibidem).
E quando, no drama “Hamlet”, o primeiro ministro Polônio se propõe, com muitos circunlóquios, a relatar ao rei e à rainha o que descobriu sobre a loucura de Hamlet, Gertrudes, a rainha, se sente obrigada a admoestá-lo: “Mais conteúdo e menos palavrório!” (ato 2; cena 2) e dá a regra de ouro de um relato.
O conto curto, quase que universalmente conhecido como short story, nasceu no mundo anglo-americano. Um de seus expoentes e dos mais queridos foi O. Henry, pseudônimo de William Sydney Porter, de vida fulgurantemente trágica e curta.
Porter nasceu em Greenboro, Virgínia do Norte. Tentou publicar uma revista humorística. Depois trabalhou corno caixa no Banco Austin. Problemas com a prestação de contas diárias levaram-no a sofrer a acusação de ter surrupiado dinheiro do banco. Fugiu para Nova Orleans e, depois, para Honduras. Quando soube que sua mulher tinha ficado muito doente, voltou para Austin. Foi preso e condenado a cinco anos de prisão. Só serviu por três anos. Um carcereiro, Orrin Henry, foi-lhe condescendente e amável. Um companheiro de prisão emprestou- lhe um livro Retrieved Reforrnation. Porter decidiu-se a escrever um conto e o enviou para uma revista sob um pseudônimo: o nome do carcereiro amigo. O conto foi aceito e publicado. Em 1902, foi para Nova lorque, cidade que amou profundamente e que se tomou o ambiente de muitas de seus contos curtos, relatados sob o peudônimo de O.Henry
Tomou-se escritor profissional. Morreu aos 45 anos de idade de tuberculose. Deixou mais de 600 contos curtos. Alguns deles, jóias de primeiro quilate; “Relatório municipal”, “Uma historia inacabada”, “Um barganhador com cassetete” “Um amante barato”, “Dois cavalheiros num Natal” são os mais repetidos em todas as antologias. Dele, meus preferidos são “O policial e o hino”, “A última folha” e “O presente dos magos”.
Eis o resumo de um desses contos:
O policial e o hino.
Soapy (sugismundo) é apresentado no início do conto. Ele era um vagabundo de rua que tinha inventado várias artimanhas para, com a aproximação do fim de cada outono, conseguir ir para a cadeia, onde, pelos três meses de inverno, lhe seriam garantidas comida quentinha e uma cama morna.
Mas nesse outono ele não estava dando sorte. Todas as peripécias que anualmente o tinha levado à presença de um magistrado tinham falhado. Entrar num restaurante, almoçar e, no fim, avisar que não tinha dinheiro; incomodar uma senhora na rua; esparramar pelo chão a carga de maças arrumadinhas numa carroça declarando-se o culpado e várias outras transgressões da ordem pública tinham falhado miseravelmente neste pré-inverno, que ameaçava ser dos mais rigorosos. Desconsolado, caminhava a esmo pelas ruas, desesperançado do passadio desejado. Numa dessas andanças encontrou-se em uma praça, na qual se situava uma igreja. Pelas portas abertas do templo chegaram-lhe os sons de um órgão no qual alguém ensaiava as canções natalinas.
Sentado num degrau da escadaria, ao ouvir a música das canções lembrou-se de que, em menino, sua mãe as cantava para ele. Envergonhou-se de sua situação; do que se tinha tornado e da humilhação que sua mãe sentiria ao vê-lo um vagabundo de rua, sem dignidade e sem auto-estima. Prometeu-se procurar um emprego onde pudesse trabalhar comer e dormir, Iria viver dali em diante de tal modo que sua mãe se orgulhasse dele se viesse a encontrá-lo. Estava no auge de sua disposição quando uma mão pousou em seu ombro e o comando de um policial lhe ordenou que o seguisse. No dia seguinte, um juiz lhe determinou três meses de detenção por vagabundagem e falta de moradia fixa.
Freqüentemente, o enredo de um conto forma-se a partir de uma lenda ou de um relato de domínio público. Não se trata de plágio, mas de recriações de um tema. E este o caso de uma lenda religiosa medieval de nome Beatriz.
Beatriz foi trabalhado e modificado por Cesarius van Heisterbach, em seu livro Diálogo dos Milagres; por Gauthier de Coicy em Milagres da Santa Virgem; nas Cantigas de Dom Afonso o Sábio (rei de Espanha); por Jacopo Passavanti no seu Espelho da Verdadeira Penitência; por Ghisbert, O flamengo sob a forma de um longo poema intitulado Beatriz. Posteriormente, lope da Veja, Zorilla, Maurice Maenterlink, os Irmãos Tharaud e, por fim, Gottfried Keller, autor alemão moderno, em seu livro Sete Lendas, que, entre nós, foi traduzido e prefaciado por Aurélio Buarque de Holanda e Paulo Ronái.
A lenda medieval fala de uma bela e jovem monja, que, entre suas atribuições, deveria cuidar e pôr flores no altar da Virgem Maria. De uma das janelas de seu mosteiro, a monja via com freqüência um belo cavaleiro, que também passou a notá-la. Acabaram se enamorando. Fugiram. Poucos anos depois de juntos, o cavaleiro a abandonou e ela teve que se prostituir. Por fim arrependeu-se e, filha pródiga, firmou o desejo de voltar e pedir perdão à madre superiora, implorando-lhe ser apenas mais uma empregada de sua abadia. Realizou seu intento. A abadessa ficou muito admirada..com o pedido da estranha e alegou que devia haver um terrível engano pois a monja jamais tinha saído da clausura. Apenas alguém roubara a imagem de Nossa Senhora. E para provar levou a visitante arrependida até o altar. Esta negou-se a entrar na capela. Lá, no altar estava a imagem de Nossa Senhora, como sempre, em seu lugar, a monja jovem estava diante da superiora com a aparência de sempre, pois a Mãe de Jesus havia tomado o lugar dela na comunidade durante sua ausência e parado o tempo. Noutro relato, A Virgem Maria também faz o tempo parar até que a monja retome. E noutro, ainda, a faz ter-se casado, tido filhos, sido feliz maritalmente. E com a morte do marido ter desejado retornar a seu viver inicial.. Também neste relato a Mãe de Jesus tinha parado o tempo.
A crônica é uma conversa entre amigos, como que dois dedos de prosa.
A diferença entre o conto e a crônica é basicamente que o conto é um relato, enquanto que a ênfase da crônica está no devaneio.
É interessante notar- que a crônica, libélula da literatura, nasceu com os jornais modernos e floresceu naquelas cidades e entre aqueles povos  amantes de conversar, capazes do amor à palavra e de degustar a boa frase, aquilo que os franceses chamam de bon mot. Surgiu em Paris, com o nome de feuilleton e, com este nome, brilhou na Berlim entre as duas guerras mundiais.
Berlim, agora outra vez capital da Alemanha, tornou-se notória pela capacidade de seus filhos de rir, contar anedotas, apelidar pessoas e monumentos, o que de nenhum modo é um atributo de toda a Alemanha. Quando, na última Grande Guerra, os aliados bombardearam inclementemente a capital alemã, na qual nem havia fábricas bélicas nem grandes contigentes militares, um dos prédios arrasados foi a Gedächtniskirche,  a Igreja da Memória , erigida em lembrança do Kaiser Guilherme 1º, em pleno centro da capital. Após o bombardeio restou apenas a torre da igreja. Ainda assim, tremendamente danifificada, com o restante de suas paredes desmoronadas de modo irregular. Alguns dias depois da demolição, tinha ficado decidido que se reconstituiria o templo no futuro, mas se deixaria a torre no estado em que se encontrava, pois os berlinenses já a tinha apelidado de “dente cariado”, mais uma criação da conhecida Berliner Maul, ou seja, “o desaforado focinho berlinense”, pois Maul é o focinho dos animais em alemão e sempre pejorativo quando usado para humanos.
Nesse período de entre guerras, o teatro de veaudeville, assim como a crônica tiveram seu auge, o que só veio se repetir depois do término da II Guerra Mundial, quando os berlinenses, cercados pelas tropas de ocupação americanas a oeste e pelas soviéticas a leste, encenou, por décadas, os politische Kabarette encenações teatrais jocosas e de afiada crítica política. Um dos mais famosos desses minúsculos grupos teatrais chamou-se die Insulaner, Os Ilhéus, pois Berlim tinha se tornado uma ilha de inteligência entre as raivosas águas de dois lados beligerantes e idiotas.
Na Berlim de entre as duas guerras, brilhou de modo ímpar um cronista literário, Kurt Tucholsky, que não agüentou a mordaça nazista. Suicidou-se.
A Inglaterra, país no qual os magnos assuntos de bom-tom são a chuva e o gosto do chá preto, e onde o horror de parecer indiscreto se corporifica na freqüentemente usada expressão: “I don’t wish to be personal” e onde as crianças cedo aprendem que “Como vai?” não é uma pergunta e, sim, um cumprimento e que deve receber como resposta apenas outro “Como vai?” é evidente que a crônica não poderia florescer. Na Inglaterra brilham de modo ímpar os ensaístas, pois que o ensaio é uma forma literária solitária, enquanto a crônica é uma conversa, uma abertura de coração. E por isto que os franceses, com maliciosa agudeza, declaram que “silêncio é o que os ingleses praticam quando em conversação animada.”
Como o romance e o conto, a crônica também se assenta sobre um tema principal, uma espécie de mote, a partir do qual a imaginação se espraia. Esse enredo abrange um fio condutor, um tema básico em volta do qual são feitas excursões em temas elucidativos. E o final da crônica que reúne todos os fios — os vários assuntos abordados — e coroa o texto.
Nas Américas, o paraíso da crônica é o Brasil. Aqui ela alcançou o nível de grande literatura.
Entre nós, a crônica surgiu em jornais do Rio de Janeiro, quando ainda capital da Primeira República, no fim do movimento Romântico, como resenhas semanais literárias e tornou-se permanente no período do Modernismo.
lnicialmente, tratava de assuntos ligeiros, superficiais e do momento. Dava a sensação de espontaneidade e naturalidade. Sua linguagem, como até hoje, era simples e objetiva.
Com o Modernismo, o processo foi transferido para a execução de pequenas narrativas circunstanciais que deleitavam os leitores.
A diferença básica entra a crônica e o conto é que a crônica não contém conflito. A crônica termina em aberto e antes de o conflito se estabelecer.
Entre centenas de magníficos cronistas do passado e recentes, surgem os nomes de Machado de Assis, Lima Barreto, Rachel de Queiroz, Carlos Drummond de Andrade, Paulo Mendes Campos e Fernando Sabino. Porém, desde o Amazonas até o Rio Grande do Sul, tanto no passado quando no presente, cronistas do melhor quilate abrilhantam as páginas de nossos jornais diários.
Até há alguns anos, ninguém foi mais constantemente brilhante que Rubem Braga, cujas crônicas eram a primeira leitura obrigatória para legiões de admiradores e de quem, Otto Lara Rezende, com rara felicidade, afirmou que “quando ele tem assunto é muito bom. Quando não tem ainda é melhor”
Desde sua Porto Alegre, mas em uma cadeia de jornais diários, Fernando Veríssimo tem se dedicado à crônica sardônica. Em Florianópolis, com constância admirável, Sérgio da Costa Ramos, diariamente e há anos, tem nos dado o sal de seu espírito. Agora, de Lages, Paulo Ramos Derengoski juntou-se a um grupo de cronistas que se reveza no Diário Catarinense, no qual Flávio José Cardozo brilhou com suas diárias conversações amenas. Eu, por quinze anos, colaborei dominicalmente em “O Estado” daqui, e, depois, em várias revistas da nossa capital. Atuamente, vem surgindo um grupo de jovens cronistas catarinenses, cujo ardor, próprio da juventude, clama” contra tudo isto que aí está” em catilinárias frementes. Com o tempo aprenderá que a crônica é conversa amena; nem é panfletária nem consertadora do mundo. Seu tom não é vermelho; tem o dourado do mel e analisa com a calma estóica da maturidade os desmandos do mundo que, de todo modo, parecem irmãos gêmeos de todas as civilizações.
Seja romance, conto, conto curto ou crônica, a matéria prima é a palavra.
É esta que tem que se tomar o instrumento dócil e a amante exigente do escritor. Assim como um pedreiro que não sabe manejar sua colher jamais levantará uma parede firme e forte, também o escritor que não dominar a palavra pelo seu amor e sua dedicação a ela também não conseguirá transmitir bem seu recado pessoal aos leitores.
É com a palavra,  esta matéria prima, que serão construídas as frases, os parágrafos e o texto inteiro. E preciso ao escritor amar, cultivar não só as palavras, mas tudo que lhes diz respeito: sua história, seu desenvolvimento, sua sinonimia, as nuanças de seus sinônimos.”Bastante” e “muito” são gradações de quantidade. “Bastante” é apenas o que é suficiente, o que basta; e “muito” indica mais do que apenas bastar.  Bonito, lindo, formoso, encantador transmitem a sensação de harmonia que Aristóteles declarou ser essencial ao belo. Mas nenhuma dessas palavras toma o lugar das outras.
Voltemos a amar as palavras de nossa língua. Elas não são nossa propriedade para que, por esnobice ou ignorância, distorçamos seu significado.Delas somos apenas portadores, e as devemos  entregar não estropiadas, mas intactas, às gerações que nos sucederem.
Muito obrigado.
Júlio de Queiroz
Academia Catarinense de Letras

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