domingo, 5 de setembro de 2010

No palco do teatro lembrei de um poema

Eu estava no palco encenando o contador de histórias, falava da vaidade do lago, da humildade de Górdio e das conquistas de Alexandre da Macedônia. Um ator, representando a morte, passa no palco, silenciosamente, ao fundo, carregando uma foice...

Lembrei dos versos de um poeta espanhol Juan Ramón Jiménez (1881-1958). Quase os recitei, mudando o roteiro. Pensei, têm tudo a ver! Cada vez mais o mundo necessita da intervenção dos poetas.

A viagem definitiva - Tradução de Manuel Bandeira (1886-1968)

Ir-me-ei embora. E ficarão os pássaros
Cantando.
E ficará o meu jardim com sua árvore verde
E o seu poço branco.

Todas as tardes o céu será azul e plácido,
E tocarão, como esta tarde estão tocando,
Os sinos do campanário.

Morrerão os que me amaram
E a aldeia se renovará todos os anos.
E longe do bulício distinto, surdo, raro
Do domingo acabado,
Da diligência das cinco, das sestas do banho,
No recanto secreto de meu jardim florido e caiado
Meu espírito de hoje errará nostálgico...
E ir-me-ei embora, e serei outro, sem lar, sem árvore
Verde, sem poço branco,
Sem céu azul e plácido...
E os pássaros ficarão cantando.

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